Sabe aquelas pessoas estranhas, que povoam, involuntariamente, ao meu ver, nossa rotina? Aquelas pessoas que você não sabe de onde vieram, o que fazem quando não estão ali, se estudou, se construiu família, se são malucos, enfim…
Uma dessas pessoas é um homem, já em sua meia idade, que fica “limpando” um portão de um edifício abandonado, ao lado de uma “Igreja Universal do Reino de Deus”. Digo limpando, porque é isso que ele parece fazer: com a manga de sua camisa violeta, esfrega constantemente, como uma dona de casa frenética, louca por limpeza, que nunca está satisfeita. Acima do peso; de barba escura, por fazer, pernas e pés muito sujos. Como se não tomasse banho há dias… Meses talvez.
É a mesma cena todos os dias. Eu no ônibus, lendo até fazer uma pausa para olhar o maníaco por limpeza. “O que ele tanto limpa? Será que é limpeza? Será que ele tem família? É alienado além de marginal? Não bate bem da cabeça?” – penso. Muitas questões que não serão explicadas, pois não chegarei mais perto do que a distancia do ônibus na rua e dele na calçada da igreja.
A segunda pessoa é um senhor, até bem vestido, mais velho do que o citado antes, aliás, um senhor idoso. Os poucos cabelos ao redor de sua cabeça já brancos, sua testa e pescoço enrugados. Todas as quistas-feiras, ao passar no caminho de casa ele fica em frente a uma pizzaria, comendo biscoito recheado, geralmente sabor morango. Não olha para cima, nem para os lados; sempre para baixo. Imóvel, nem um passo a frente, nem ao lado, ou aquelas voltinhas que damos em volta de nós mesmos quando estamos entediados.
O que este homem está pensando quando passo. Às vezes dá vontade de atravessar a rua e sentar no ponto do ônibus para ver para onde o homem vai depois daquele frenesi todo.
É… dá vontade de saber muita coisa.
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